No dia em que o desastre de Brumadinho completou sete anos, a Vale registrou novo episódio

Faz sete anos que o Brasil viveu um dos maiores desastres ambientais da mineração: o rompimento da barragem em Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019, que deixou 272 mortos. Na data que deveria servir de memória, respeito e aprendizado, fomos confrontados com mais um episódio grave envolvendo a Vale: o “extravasamento de água com sedimentos” em sua mina de Fábrica, entre Ouro Preto e Congonhas, em Minas Gerais. O eufemismo “extravasamento”, utilizado nesse evento, agride a inteligência e a dor de todos nós.


O que aconteceu, de forma clara e objetiva, segundo relatos da imprensa, foi o vazamento de mais de 200 mil m³ de água (equivalente a 80 piscinas olímpicas) misturada a sedimentos. A lama alagou instalações, obrigou a retirada às pressas de cerca de 200 trabalhadores e atingiu o córrego Goiabeiras, ligado à bacia do rio Maranhão. Ainda que a empresa afirme que não houve impacto sobre comunidades, é impossível tratar um evento dessa magnitude como algo menor ou imprevisto. Não é.
O mais chocante é a coincidência simbólica — e trágica — dessa ocorrência com o encerramento de uma etapa das buscas em Brumadinho. Foram mais de 2.500 dias de trabalho exaustivo do Corpo de Bombeiros para localizar vítimas soterradas pela lama. Famílias inteiras tiveram suas vidas suspensas por anos, esperando por respostas, por restos mortais, por um mínimo de dignidade.
Em Brumadinho, as investigações demonstraram que houve negligência e dolo, conforme detalhadamente exposto no livro escrito pelos delegados federais envolvidos na investigação, intitulado “Brumadinho: a engenharia de um crime”.
É inadmissível que mais um episódio de descontrole operacional de barragens seja registrado, principalmente pela mesma empresa responsável pelos dois maiores desastres ambientais do país. A emergência climática é uma realidade inquestionável e todas as empresas sérias, há muito, têm considerado essa realidade em seus projetos e planejamentos. Eventos climáticos extremos não são novidade, nem imprevisíveis. Portanto, o planejamento de medidas preventivas e mitigadoras é mandatório para todas as atividades sujeitas a esse tipo de risco.
A Vale insiste em narrativas que tentam minimizar os danos. Afirma que o rejeito é “inerte” e “atóxico”, que os rios já estavam contaminados antes. Francamente, que vergonha!
Como sociedade, não podemos normalizar o inaceitável. Em novembro de 2015, rompeu a barragem da Mina do Fundão, em Mariana; em janeiro de 2019, rompeu a da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho; e, em janeiro de 2026, “extravasa” a lama da mina de Fábrica, entre Ouro Preto e Congonhas.
Basta de falhas evitáveis e de impunidade! O respeito e o cuidado com as pessoas e o meio ambiente não podem falhar. Nunca!