Estamos novamente, em um curto intervalo de tempo, diante de um novo conflito e de uma consequente crise no abastecimento de fertilizantes. A guerra dos EUA e Israel contra o Irã, entre tantas outras consequências relevantes, afetou drasticamente o fornecimento desses insumos.

No Brasil, país agroexportador e grande produtor agrícola, os impactos dessa crise são bastante significativos, uma vez que importamos mais de 85% dos fertilizantes nitrogenados de que necessitamos. Em 2025, cerca de 35% da ureia importada pelo Brasil veio do Oriente Médio. No total, o país importou aproximadamente 7,7 milhões de toneladas no último ano.
Nossa elevada dependência de importações é injustificável, preocupante e representa uma ameaça à segurança e à soberania alimentar. Mas precisava ser assim? A resposta é Não!
E por que insistimos no tema da segurança e soberania alimentar? Porque ele é real e indispensável para o país.
Para essa discussão, é imprescindível resgatar a história recente. A Petrobrás produzia fertilizantes nitrogenados (ureia) em suas três fábricas, da Bahia e de Sergipe (fafens) e do Paraná (Ansa).
Entre 2003 e 2016, foi concebido um projeto de Brasil soberano que buscava, entre outras medidas estratégicas, garantir a segurança energética e alimentar do país. No setor de fertilizantes nitrogenados, com o objetivo de reduzir nossa dependência de importações, foram planejadas mais três fábricas: UFN-3, em Três Lagoas (MS); UFN-4, em Linhares (ES); e UFN-5, em Uberaba (MG).
Nesse contexto, entra em cena a operação lava jato, que suspendeu contratos de grandes obras da Petrobrás, entre elas o da UFN-3, que estava cerca de 80% concluída, inviabilizando esses projetos.
Com o golpe de 2016, Temer muda radicalmente a visão estratégica do governo sobre a empresa. No Plano de Negócios 2019-2023, aprovado em 2018, o Conselho de Administração, sob proposta da Diretoria Executiva, decidiu pela saída da Petrobrás do setor de fertilizantes.
Em 26 de setembro de 2019, no governo Bolsonaro, foram aprovados os elementos estratégicos do Plano de Negócios 2020-2024, que reforçaram e aprofundaram essa decisão. As três fábricas foram então colocadas à venda.
Após tentativas frustradas de privatização, as fafens da Bahia e de Sergipe foram arrendadas para a Unigel que, após lucrar com a exportação de grande parte da produção durante a alta de preços decorrente do conflito entre Ucrânia e Rússia, hibernou as fábricas, atribuindo à Petrobrás a responsabilidade por sua ineficiência.
A Ansa, hibernada em fevereiro de 2020, permaneceu à venda até 2022, quando o CA não aceitou os termos da negociação encaminhada pela Diretoria Executiva.
Com o novo governo, em maio de 2023, foi aprovado, no Conselho de Administração, o retorno da Petrobrás ao setor de fertilizantes, permitindo a retomada das fábricas e abrindo a possibilidade de redução da dependência externa.
Retomadas pela companhia em junho de 2025, as fafens de Sergipe e da Bahia voltaram a operar em 31 de dezembro e 19 de janeiro, respectivamente, atingindo cerca de 90% da capacidade. Juntas, respondem por aproximadamente 12% da demanda brasileira de ureia.
Em Sergipe, a produção chega a 1.250 toneladas por dia de amônia e 1.800 toneladas por dia de ureia. Na Bahia, a planta já supera 95% da capacidade, com cerca de 1.300 toneladas por dia de ureia, 1.300 toneladas por dia de amônia e 780 toneladas por dia de Arla 32 (Agente Redutor Líquido Automotivo).
Essa produção já abastece diversos estados, contribuindo para reduzir os riscos de desabastecimento em um momento de instabilidade internacional.
A retomada da Ansa, com entrada em operação prevista para o primeiro trimestre deste ano, é parte essencial dessa estratégia. A unidade tem capacidade instalada para produzir 720 mil toneladas por ano de ureia (1.972 t/dia), 475 mil toneladas por ano de amônia (1.300 t/dia) e 450 mil toneladas por ano de Arla 32 (1.230 t/dia).
A retomada das fafens de Sergipe e da Bahia ocorreu, infelizmente, por razões conjunturais que não serão discutidas aqui, por meio da terceirização das atividades de operação e manutenção. Já a Ansa abriu concurso público para 126 vagas.
Cabe registrar, como já foi feito quando da aprovação da retomada das duas primeiras unidades, que a primeirização é fundamental e deve estar na ordem do dia para efetivação no menor prazo possível.
Por fim, também é importante destacar a necessidade de avançar para que as duas fábricas anteriormente planejadas — UFN-4 e UFN-5 — saiam do papel, ampliando a oferta desses insumos estratégicos e críticos, na direção da tão necessária segurança e soberania alimentar.