Entre mitos e fatos: a verdadeira trajetória da exploração de petróleo no Brasil

Voltou a circular nos últimos dias uma reportagem, que havia sido publicada pela BBC News Brasil em 2023, sobre a história da exploração de petróleo no Brasil e o suposto conselho do geólogo norte-americano Walter Link à Petrobrás. Trata-se de uma narrativa que reaparece de tempos em tempos e que merece ser revisitada à luz dos fatos históricos e dos registros técnicos.


A reportagem reforça a versão segundo a qual a Petrobrás teria ignorado uma recomendação decisiva de Walter Link para concentrar seus esforços na exploração marítima, desperdiçando uma oportunidade histórica. O problema é que essa versão não corresponde aos fatos, simplifica excessivamente um processo muito mais complexo e desconsidera aspectos fundamentais do contexto da época.
Geólogos aposentados da Petrobrás, que ajudaram a construir a história da exploração de petróleo no Brasil e acumulam décadas de experiência no setor, lembram que, entre 1955 e 1960, a companhia realizou uma das maiores campanhas exploratórias conduzidas por uma única empresa no mundo ocidental. Somente na Amazônia, mais de cem poços foram perfurados.
Também é importante lembrar que, no final da década de 1950, a exploração offshore ainda engatinhava em todo o mundo. Não havia, naquele momento, nem o conhecimento geológico nem a tecnologia que, anos mais tarde, permitiriam as grandes descobertas no mar brasileiro.
Segundo especialistas que estudaram os documentos históricos, Walter Link jamais recomendou a transferência imediata dos esforços exploratórios para a plataforma continental. Sua orientação era outra: ampliar a atuação da Petrobrás no exterior, em áreas consideradas altamente promissoras. Essa visão só seria incorporada anos depois, com a criação da Braspetro, em 1972.
Curiosamente, mesmo naquele contexto de limitações tecnológicas, uma linha sísmica adquirida em 1958 serviria de base para a descoberta, dez anos mais tarde, do campo de Guaricema, o primeiro da plataforma continental brasileira.
A ciência e a história não podem ser tratadas como narrativas definitivas e imunes ao contraditório, muito menos distorcidas para atacar a reputação histórica de uma empresa e de seu corpo técnico. Chama a atenção, nas diversas reportagens e matérias sobre energia e petróleo, a ausência de especialistas da própria Petrobrás.
Existem dezenas de geólogos aposentados da companhia que acumulam conhecimento, experiência e memória técnica valiosíssimos. Ouvi-los não significa abrir mão do jornalismo crítico; significa profissionalismo, ao ampliar as fontes de informação, incluindo os atores mais próximos, profissional e historicamente, dos fatos.
A Petrobrás não se tornou referência mundial em exploração em águas profundas e ultraprofundas por acaso. Essa conquista é resultado de décadas de trabalho, pesquisa e desenvolvimento tecnológico conduzidos por gerações de profissionais brasileiros.
Quando se trata da história do petróleo no Brasil, o compromisso com os fatos exige mais do que uma narrativa atraente. Exige contexto, rigor e pluralidade de fontes. Porque contar apenas uma parte da história é correr o risco de não contar a história verdadeira.