O preço do desmonte da Petrobrás na segurança energética do Brasil

A guerra dos EUA e Israel contra o Irã gera intensa turbulência geopolítica, com consequências amplas, sobretudo no setor de óleo e gás. Conflitos geopolíticos, em sua maioria, envolvem disputa por energia ou recursos naturais estratégicos, com efeitos quase imediatos no mundo — seja nos preços, seja na escassez desses recursos.
No caso da energia, o conflito reacende um debate que nunca deveria ser minimizado: segurança e soberania energética. E nesse campo, improviso é sinônimo de fracasso. Segurança e soberania energética exigem visão de longo prazo, planejamento e investimento. Deve ser política de Estado. E o Brasil já esteve bem mais próximo desse objetivo.
Entre 2003 e 2016, a Petrobrás e o Estado brasileiro conduziram um dos projetos energéticos mais ambiciosos da nossa história. O primeiro passo foi assumir altíssimos riscos e investimentos na descoberta e desenvolvimento do pré-sal. A partir daí, o país passou a figurar entre os grandes produtores de petróleo do mundo. O plano, porém, não se limitava ao óleo cru: buscava também a autossuficiência em derivados, como diesel, gasolina e querosene de aviação, com a ampliação da capacidade de refino.
Nesse contexto surgiram projetos estruturantes como a Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, e as refinarias Premium I, no Maranhão, e Premium II, no Ceará. A localização no Nordeste não era casual: visava atender o mercado interno, ampliando a oferta no Norte e Nordeste, permitindo a exportação dos excedentes para a América do Norte e a Europa. Tratava-se de um projeto de soberania energética e desenvolvimento industrial.
Mas esse projeto foi interrompido pela operação lava jato. Mais do que combater a corrupção — algo necessário em qualquer democracia — a operação tinha outros objetivos ocultos e escusos, que, posteriormente, foram comprovados e revelados ao país. Ao lançar mão de práticas de “lawfare”, a operação paralisou grandes obras da Petrobrás, afetou a engenharia nacional e a cadeia de fornecedores do setor de óleo e gás, com o extermínio de mais de 4 milhões de empregos, segundo o Dieese. Em seu desfecho, viabilizou o golpe de estado jurídico parlamentar em 2016 e a ascensão do fascismo no país. A ironia final e “cereja do bolo” foi a descoberta da tentativa de desviar do Estado, por parte dos articuladores da operação, R$ 2,5 bilhões a uma fundação de fachada.
O impacto sobre a Petrobrás foi profundo: projetos estratégicos paralisados, obras interrompidas e investimentos suspensos. A Rnest, concebida para ampliar significativamente o refino nacional, passou anos operando com menos da metade de sua capacidade. As refinarias Premium I e II não saíram do papel. O Brasil, que caminhava para a autossuficiência em derivados, viu esse projeto ser desmontado.
A partir de 2016, iniciou-se um processo de desmonte e desverticalização da Petrobrás, intensificado desde 2019, com foco na privatização. A companhia, historicamente integrada — “do poço ao posto”, incluindo fertilizantes, petroquímica, biodiesel e termoelétricas —, reduziu sua presença em diversos elos da cadeia.
Nesse projeto de Brasil neocolonizado, foram privatizadas transportadoras de gás (NTS e TAG), a Liquigás, a BR Distribuidora, refinarias como Rlam, SIX, Reman e RPCC (Clara Camarão), além de todos os campos terrestres (exceto Urucu e Polo Bahia Terra), além de campos offshore, com destaque para Albacora Leste, responsável pela nossa primeira autossuficiência na produção de petróleo em 2006.
Apresentado como modernização para ampliar a concorrência e reduzir preços, o resultado, na prática, foi a alta e descontrole dos preços, espoliando o consumidor. Os efeitos são visíveis na distribuição e comercialização do gás de cozinha, dos derivados nas refinarias privatizadas e nos postos de abastecimento.
Importante destacar que , em 2023, com o novo governo e Conselho de Administração da Petrobrás, iniciamos o resgate do papel estratégico da companhia. Aprovamos no CA, em junho de 2023, os direcionadores do Plano de Negócios 2024–2028, incluindo fertilizantes, petroquímica, ampliação da oferta de gás e a autossuficiência em derivados. Em agosto de 2025, também foi aprovado o retorno à distribuição e comercialização de gás e derivados. O CA fez a lição de casa.
A capacidade do Estado, por meio da Petrobrás, de regular o mercado de derivados foi anulada completamente com as privatizações. Resgatar esses ativos estratégicos, reintegrar e reverticalizar o Sistema Petrobrás não deveria ser uma pauta apenas em tempos de crise ou restrita a movimentos sociais e sindicais. Essa bandeira deve se manter erguida de forma permanente, para todos que defendem um Brasil soberano e justo.